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#TBT: Atacante campeão paulista sub-20 pela Portuguesa revela mágoa com a diretoria

Quinta-feira é dia de relembrar grandes momentos no #TBTDaBase. Há dez anos, a Portuguesa superou os rivais da capital e as forças do interior para conquistar o Paulistão sub-20. Entre revelações e dificuldades, a conquista de 2010 produziu grandes histórias.

Portuguesa foi campeã pela primeira vez em 20 anos. Foto: Divulgação/ Portuguesa

A Lusa disputava a Série B pelo segundo ano consecutivo e buscava o acesso para a elite do futebol profissional. Na base, a esperança de produzir bons jogadores para reforçar o elenco principal vinha de uma equipe humilde e que desafiava os grandes da capital no Paulistão sub-20.

Para enfrentar essas equipes, a Portuguesa mostrava técnica e ousadia para bater de frente. É o que conta o preparador físico daquele time, Juliano Dutra, em entrevista exclusiva ao DaBase.com.br. Ele explica que o estilo de jogo era fundamental para bater as principais equipes do torneio.

“Tínhamos um time técnico, que jogava com bola no chão. Propúnhamos o jogo pois tínhamos jogadores de qualidade. Sempre foi um marco da Portuguesa ir bem contra os grandes. Nosso time tinha muita qualidade, era muito respeitado, já estávamos acostumados a enfrentá-los e não ficávamos esperando na defesa”, disse.

Danilo Alves, atacante e destaque do time, também ressalta a qualidade técnica da equipe Ele lembra da velocidade e agressividade dos jogadores na marcação e dos duelos contra os grandes, nos quais todos queriam jogar. Para o atacante, a união do grupo também fazia a diferença.

“A relação do grupo era muito boa, tínhamos uma união, era muito família. Todos os jogos as famílias de todos os jogadores estavam no estádio, era uma atmosfera muito boa. Nosso treinador (Edu Miranda) era querido por todos, ele alegrava demais o ambiente”, contou.

Além de unido, o grupo era muito humilde, de acordo com Juliano Dutra. O preparador físico relembra os dias anteriores à decisão, diante do Palmeiras.

“Os jogadores se gostavam muito, tinham todos o mesmo objetivo. Eram meninos pobres, queriam uma oportunidade para chegar ao topo, não tinham vaidade nenhuma. Um dia antes da final no Canindé, todos pediram para concentrar debaixo da arquibancada, nos alojamentos. Sabiam o que queriam, o título. No vestiário, nem esperavam o treinador orientar, sabiam onde  erravam e um cobrava o outro”

Daquela equipe, saíram vários jogadores para o futebol nacional. Alguns, como o volante Guilherme, foram fundamentais no título da ‘Barcelusa’ na Série B de 2011. O zagueiro Yago, foi campeão brasileiro pelo Corinthians, em 2015. Ronaldo foi destaque do Paulistão 2020 pelo Santo André e acertou com o Sport Recife.

Elenco da Portuguesa contava com nomes conhecidos no futebol nacional. Foto: Divulgação/ portuguesa

Outros, como Rafael Silva, ex-Cruzeiro e Vasco, o zagueiro Jaime e o próprio Danilo Alves, atuam em mercados alternativos – Bolívia, Indonésia e Coreia do Sul, respectivamente. Danilo, inclusive, foi o artilheiro da equipe no torneio ao lado de Ronaldo, com seis gols. Apesar disso, seu futuro na Portuguesa foi marcado por discussões, afastamentos e uma mágoa com a diretoria.

“Quando voltei de empréstimo do Luverdense, me colocaram para treinar em separado. O Jorginho era o técnico na época, tinha muito moral por causa da ‘Barcelusa’. Então, resolvi pegar o telefone e ligar para ele pedindo uma oportunidade. Ele desmentiu a diretoria, que tinha me falado que o técnico só queria jogador de nome, e me chamou para treinar no dia seguinte”, contou.

“Conversei com ele e expliquei minha situação. Ele mandou eu calçar as chuteiras, mas disse que se eu não fosse melhor dos que já estavam lá, poderia ir para o c*** (risos). O diretor me viu treinando e perguntou se eu estava louco, mas expliquei que foi o que o treinador pediu. Ele saiu muito bravo. Não sei o que aconteceu depois”

Danilo estreou como profissional e marcou seu primeiro gol contra o XV de Piracicaba, pelo Paulistão. Pouco tempo depois, Jorginho deixou o clube e ele voltou a ser descartado pela diretoria. Após rodar o interior do Brasil, o atacante atuou na Albânia, Turquia e Cazaquistão até chegar ao Suwon FC, da Coreia do Sul, em 2020. Aos 29 anos, ele ressalta a gratidão que tem pela Portuguesa e por Jorginho, mas não esconde a mágoa com a diretoria.

“Sou muito grato a Portuguesa e ao Jorginho. A diretoria não gostava de mim e não sei o porquê. Nunca desrespeitei ninguém, sempre tratei todos muito bem. Para mim, o título não mudou em nada a relação dentro do clube. Eles sempre me excluíram, sempre me emprestaram depois disso. Mas eu fui persistente e por isso consegui ser um jogadores profissional”, desabafou.

Com Juliano Duarte, a situação foi diferente. O profissional deu sequência à sua carreira no São Paulo, onde foi campeão da Taça BH, da Copa São Paulo do ano passado e de diversos outros títulos pelo time sub-20. O preparador físico afirma que a conquista pela Portuguesa, no entanto, é diferente, pois abriu portas e marcou história no clube.

“Uma coisa é ser campeão em um time grande, outra é na Portuguesa, um time médio, desafiando os gigantes. Marcou minha história, abriu portas. Quando se fala da Portuguesa, nosso nome (comissão técnica) é lembrado. Será difícil chegar de novo e ganhar o Paulista, um torneio tão forte”, comentou.

A CAMPANHA

Frente a outros 28 adversários, a Lusa iniciou o Paulistão sub-20 de 2010 no Grupo 3, ao lado de Corinthians, Flamengo de Guarulhos, Audax, Guaratinguetá e São José. Depois de três vitórias e um empate fora de casa contra o Corinthians nas quatro primeiras rodadas, a equipe encontrou as primeiras dificuldades.

A Lusa perdeu duas e empatou outras duas, chegando às rodadas finais correndo risco de eliminação. A vitória por 3 a 1 sobre o São José, fora de casa, deixou o time a um empate da segunda fase. No entanto uma derrota para o Audax, em casa, na última rodada quase colocou tudo a perder. A Lusa se classificou graças à derrota do Flamengo de Guarulhos para o já eliminado Guaratinguetá.

Lusa bateu Palmeiras nos dois duelos da final. Foto: Fernando Martinez

Para Juliano, as dificuldades se deram pelas mudanças na equipe. “A classificação foi apertada pois oscilávamos muito. Mudávamos muito o time pois os atletas desciam do profissional para jogar alguns jogos quando não eram convocados. Isso alterava muito as características”, explicou.

A campanha da Portuguesa na segunda fase foi irregular. Ao lado de Palmeiras, Guarani e Rio Preto no Grupo 9, a equipe venceu duas partidas fora de casa (2 a 1 no Palmeiras e 4 a 1 no Guarani), perdeu para os mesmos times em casa – ambos por 2 a 1 – e empatou os dois jogos diante do Rio Preto por 2 a 2. A vaga nas quartas de fina veio, novamente, graças à combinação de resultados, já que o Guarani perdeu para o Palmeiras na última rodada.

Nas quartas, a Lusa abriu boa vantagem no jogo de ida diante do Rio Claro: vitória por 2 a 0, gols de Jean Natal e Ceará. Na volta, Piraju abriu o placar e, mesmo com a virada adversária, a derrota por 2 a 1 não ameaçou a classificação às semifinais. Os duelos contra a Ponte Preta ficaram marcados na memória de Juliano Dutra.

“Empatamos em casa por 1 a 1, mas eles foram muito melhores. No Moisés Lucarelli, estávamos bem, mas aos 28 minutos do primeiro tempo nosso lateral Rafael Silva foi expulso. Todos pensaram que iriamos perder. Pedi calma ao Edu Miranda, nosso técnico, pois todos acharam que ele ia dar uma dura no Rafael. Mas foi ao contrario, ele deu moral para ele e disse ao grupo que que ele precisava da vitória. Foi um marco, sabia que ganharíamos depois”

A vitória por 3 a 1 com um homem a menos embalou a Lusa para a final do torneio, diante do Palmeiras, equipe que havia batido a equipe em casa na segunda fase. Mas desta vez, a Portuguesa foi soberana.

Na ida, vitória por 1 a 0 no Canindé, gol do zagueiro Jaime. Na volta, outro zagueiro decidiu, como conta Juliano. “O gol de bicicleta do Brunão, nosso zagueiro, foi marcante. Pensei ‘agora vai ser difícil eles virarem’. Tínhamos a vantagem do empate, ganhamos em casa”, relembrou.

“Foi um jogo muito difícil. Eu lembro que estávamos ganhando e o treinador fechou a defesa. Eles pressionavam muito, mas defendemos até o final muito bem e conseguimos ser campões. Quando o juiz encerrou o jogo foi uma experiência muito incrível, era meu primeiro título como jogador, fiquei quase dois dias sem dormi (risos)”, acrescentou Danilo Alves.

A nova vitória, desta vez por 2 a 1, deu um título à Portuguesa que não vinha desde 1990. A conquista marcaria uma sequência de sentimentos opostos na torcida lusitana, que viu, no mesmo dia, a equipe falhar na briga pelo acesso à Série A do Brasileirão por um ponto. Mas que, no ano seguinte, vibrou com a ‘Barcelusa’ campeã da Série B. E que, por fim, lamentou a queda em campo e principalmente fora dele a partir do rebaixamento de 2013.

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