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Saúde bucal pode afetar desempenho esportivo: pesquisadora avalia cuidados na volta às competições

As categorias sub-17 e sub-20 iniciaram a volta aos gramados em setembro, após mais de seis meses sem competições. Os cuidados com a saúde dos atletas foram redobrados no intuito de prevenir lesões. Entre a fisiologia, a fisioterapia, a preparação física e as questões táticas e técnicas, surge um aspecto importante para o desenvolvimento dos jovens atletas: a odontologia do esporte.

Bárbara Capitanio alertou para cuidados com pancadas na boca e na face. Foto: Juliana Capitanio

A saúde bucal, subestimada por muito tempo, hoje é mais valorizada, envolvendo aspectos que vão da estética à manutenção de uma vida saudável. Mas o que muitos não sabem ainda, é que esse tipo de cuidado pode contribuir diretamente para o desempenho dos atletas em campo.

Para entender o papel da odontologia do esporte no futebol de base, o DaBase.com.br conversou com Bárbara Capitanio, Mestre em Patologia Bucal pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Membro Fundadora da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte. Ela explicou que os problemas relacionados à saúde bucal estão ligados ao bem-estar do atleta.

“A qualidade da saúde bucal pode comprometer o desempenho esportivo em diferentes pontos. No atleta jovem, pode afetar as dimensões funcionais, psicológicas e sociais do bem-estar do adolescente. As doenças bucais e as suas consequências, como infecções e dores podem ter efeitos significativos nesses indivíduos, incluindo a perda de sono, interferências no crescimento, problemas comportamentais e prejuízo no aprendizado. Os processos de comunicação, socialização e autoestima, também associados ao estado de saúde bucal, são cruciais para o desenvolvimento do atleta”, analisou.

De acordo com a pesquisadora, algumas situações observadas no atleta adulto podem ser consequências de problemas iniciados ainda na infância, além de fatores externos que prejudicam a saúde bucal.

“É possível observar que, mesmo em indivíduos jovens, as doenças bucais podem aparecer em diferentes níveis de variação e complexidade. A cárie e as doenças periodontais, especialmente a gengivite neste caso, são condições crônicas evitáveis e comuns que podem ocorrer no início da infância e ter um impacto ao longo da vida do atleta, na saúde e na qualidade de vida. Maloclusões e patologias da ATM (Articulação Temporomandibular) também são condições existentes nesta faixa etária e podem repercutir na formação do atleta. Doenças inflamatórias, patologias infecciosas agudas e condições de dores crônicas são consequências de algumas doenças da cavidade oral que, quando presente no jovem atleta em formação, podem impactar de modo negativo em seu desenvolvimento físico e social”, comentou Capitanio.

1: Professora do curso de Especialização em Odontologia do Esporte – RS, CD. Bárbara Capitanio realizando avaliação de marcadores de lesão muscular, após um teste com a categoria sub-15 do Esporte Clube Cruzeiro–RS

Com diversas pesquisas na área, ela afirma que para o atleta ter condição de executar suas atividades no mais alto nível de sua capacidade, é necessário se atentar a todos os aspectos clínicos. A ausência de um ponto pode frustrar o sonho de um jovem se tornar atleta profissional. Ela conta um episódio em que a falta de cuidado com a saúde bucal fez a diferença no futuro de um jogador.

“Há alguns anos, acompanhei um grupo de atletas da categoria sub-15 de um clube do sul do Brasil. Um de seus atletas havia assinado um contrato com um clube de Portugal; porém, poucas semanas depois, o atleta foi devolvido ao clube brasileiro, pois não havia sido aprovado após a inspeção de saúde. O clube português justificou que não poderia continuar com o acordo de compra do jogador, pois o mesmo tinha cáries em alguns dentes e outras necessidades de tratamento odontológico. Eles relataram que, na experiência deles, esse atleta não iria conseguir acompanhar o desenvolvimento dos demais. Sabemos que muitos buscam o sucesso no futebol, mas alcançar esse objetivo requer dedicação, disciplina, talento e, mais do que nuca, uma boa saúde”.

Como posso me cuidar?

As competições nacionais das categorias sub-17 e sub-20 iniciaram seu retorno em setembro e terão um calendário apertado até o início de 2021. Para recuperar as condições físicas após o longo período de inatividade e manter o alto nível, os atletas precisarão contar com a estrutura física e profissional dos clubes, além de tomar seus devidos cuidados.

Aluno do curso de Especialização em Odontologia do Esporte, Ary Nunes, após atividade de orientação em saúde bucal, com atletas da base do Santa Cruz Futebol Clube/PE (sub-17 e sub-20) (Foto: Arquivo Pessoal)

Para que a saúde bucal não seja um problema no decorrer da temporada, Bárbara Capitanio dá algumas dicas para os atletas se precaverem e para os profissionais das comissões técnicas orientarem os jovens. Veja no vídeo abaixo:

A dentista alerta que as principais causas de problemas odontológicos com atletas das categorias de base são os traumas que ocorrem na face e na boca.

“As situações de maior ocorrência de dano à saúde bucal do atleta envolvem, principalmente, os traumas orofaciais, provenientes da prática esportiva. Lacerações de lábios e mucosa, fraturas dentárias e avulsões são as ocorrências mais prevalentes. Em um de nossos estudos, avaliamos 126 jogadores de diferentes categorias (sub-15, sub-17 e sub-20) de um clube do sudeste brasileiro. 64,3% dos atletas relataram algum tipo de trauma na face. Observamos que as lacerações de partes moles dos lábios e as fraturas dentárias apresentam as maiores frequências (73% e 27%, respectivamente). As posições de zagueiro, atacante e meio-campo são as mais suscetíveis às lesões (31%, 24% e 23%, respectivamente)”.

Capitanio diz que um boa maneira de prevenir a ocorrência e a gravidades de lesões traumáticas é o uso de protetores bucais individualizados, confeccionados pelo dentista do esporte. “Esses dispositivos são feitos individualmente para cada atleta e conferem proteção e conforto para a realização da atividade. Um bom acompanhamento clínico com um dentista do esporte certamente irá ajudar o atleta no controle de qualquer possível intercorrência”, acrescentou a pesquisadora.

Trabalho integrado

Como visto nos números apresentados pela pesquisadora, cada posição do campo tem sua especificidade. O olhar individualizado para os atletas também faz parte da avaliação. É preciso entender todos os aspectos físicos, comportamentais e psicológicos dos jovens, mostrando a interdisciplinaridade da odontologia do esporte.

“As exigências das diferentes modalidades esportivas podem influenciar na conduta do profissional de odontologia. Atletas de força e de velocidade estão submetidos a diferentes protocolos de treinamento físico e nutricional. As exigências fisiológicas apresentam características de metabolismo energético diferentes, dentro de cada esporte.  O sucesso do tratamento odontológico também depende da resposta do organismo do paciente. Por esse motivo, o estilo de vida, os hábitos comportamentais, a alimentação, o uso de suplementos ou anabolizantes esteroidais e a intensidade de treinamento realizado podem influenciar nas respostas individuais da intervenção odontológica”, avaliou.

Aluno do curso de Especialização em Odontologia do Esporte. Carlos Fogaça, realizando acompanhamento e supervisão dos eventos de urgências no esporte, durante um jogo da Chapecoense (Foto: Arquivo Pessoal)

O trabalho do odontólogo do esporte só é possível com a integração das demais áreas. Com o objetivo de diminuir os fatores de risco para a saúde bucal, os cuidados colaboram diretamente na manutenção do desempenho esportivo, pauta de extremo interesse das comissões técnicas.

Um dos maiores temores na volta aos gramados são as lesões musculares, provocadas pelo longo período sem jogos. Tema de discussão entre preparadores físicos e profissionais da área, a prevenção a esses problemas pode ser auxiliada pela odontologia do esporte, como explica Bárbara.

“Sabemos que as lesões musculares são as maiores responsáveis pelo afastamento do jogador de suas atividades. Elas trazem várias preocupações como dúvidas sobre a eficiência do retorno após o período de recuperação, prejuízo no desenvolvimento das atividades de rotina, perda de massa muscular e redução de adaptação e desempenho, estresse psicológico e questões financeiras do clube e patrocinadores. Os cuidados com a saúde bucal podem auxiliar na redução de complicações envolvendo as lesões musculares e melhorar a qualidade do tecido reparado. Desta forma, conseguimos atuar paralelamente dentro do departamento de saúde, em prol do atleta”.

“Nesse sentido, é importante que os demais profissionais que trabalham com o jogador solicitem o apoio do dentista do esporte. Pais, treinadores e atletas devem ser orientados sobre os sinais e sintomas de problemas comuns durante o esporte e que podem envolver a saúde bucal. O dentista do esporte também deve compreender a importância da sua atuação como parte contribuinte para a formação do jovem atleta”, completou a pesquisadora.

Aluno do curso de Especialização em Odontologia do Esporte, Rodrigo Stanislawczuk, após atividade de orientação em saúde bucal, com a categoria sub-19 do Operário Ferroviário Esporte Clube/PR (Foto: Arquivo Pessoal)

Para alcançar o sonho de ser um jogador de futebol profissional, o jovem passa por várias etapas e encara um mundo competitivo onde os detalhes fazem toda a diferença. O cuidado com a saúde bucal, por mais simples que possa parecer, pode pesar a favor ou contra. Bárbara Capitanio finaliza dizendo que, diante de tantas exigências, a odontologia do esporte chega para colaborar no processo de formação dos atletas.

“O sonho de se tornar um atleta muitas vezes começa bem cedo, ainda nas primeiras fases da infância. Esse desejo pode refletir uma perspectiva da criança, que encontra nas figuras de seus ídolos um exemplo a seguir, mas é bastante comum também observarmos o estímulo dos pais na busca desta realização. Muitos desafios são encontrados nesta fase de vida e de crescimento e sabemos que a maioria desses jovens talvez não consiga alcançar o pódio, pois a seleção do esporte é bastante exigente e requer habilidades que podem fugir de nosso domínio. Ainda não sabemos predizer com segurança o sucesso no esporte, mas sabemos que esse processo depende de elementos construtivos. Quando pensamos no atleta infantil em formação, para o aprimoramento de seu desempenho, devemos saber que este processo é o resultado de múltiplos fatores e, um deles, é o cuidado com a saúde bucal”, finalizou.

SAIBA MAIS

A professora Bárbara Capitanio é coordenadora do curso de Especialização em Odontologia do Esporte da escola AGOR Pós-Graduação em Odontologia, em Porto Alegre. Um dos professores do curso é o Dr. André Lopes, PhD em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS e atualmente à frente da direção do Centro de Treinamento Alpha, onde ocorrem algumas atividades da especialização.

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Créditos vídeo e fotos: @capitaniojuliana

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