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Meninas da base do Santos têm atividades extracampo e acompanhamento durante a pandemia

Se a situação do futebol masculino de base é imprevisível e pessimista, com a possibilidades de cancelamento de competições e retomada das atividades somente em 2021, o futebol feminino vive dificuldades ainda maiores. Apesar disso, o Santos mantém o acompanhamento das atletas a distância e dá sequência a um projeto que vai além do trabalho entre as quatro linhas.

Santos desenvolve base desde o fim de 2018. Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo

Coordenada pela ex-goleira do clube e da seleção brasileira Thais Picarte, a base santista colhe os frutos da parceria com o projeto Meninas em Campo e segue os trabalhos mesmo durante a pandemia. É o que explica a coordenadora em entrevista exclusiva ao DaBase.com.br.

“Desde o começo mantivemos as atletas em atividade, traçamos um planejamento de treinos. Não sabíamos que duraria tanto tempo, mas seguimos para voltar com a menor perda possível. Estamos utilizando bastante esse período para que as atletas tenham conhecimento de jogo, tático. Está sendo proveitoso para as meninas e estamos estimulando muitas formas de conhecimento no futebol, para que elas melhorem como jogadores”, disse.

O trabalho extracampo feito pelo Santos não é fruto da paralisação. O clube colhe compartilha a estrutura e as atletas com o projeto. Cerca de 50 atletas nas categorias sub-15 e sub-17 contam com um campo de treinamento com arquibancada, academia e vestiário no Colégio Santa Cruz, no Butantan, em São Paulo, além do apoio profissional de comissão técnica, psicólogos e assistentes sociais. Thais detalhou as atividades realizadas.

“Temos iniciativas como um dia de treinamento fora do campo, com coaching, para preparar as atletas com uma formação diferenciada. Trabalhamos a ideia de pessoa pública, para que elas utilizem da melhor forma as redes sociais, pois preocupamos com a imagem delas. Recentemente tivemos palestras com o setor de odontologia do Santos, pois isso pode influenciar na questão física das meninas, além do acompanhamento psicológico. Trabalhamos muito com merecimento, tudo que elas fizerem terão recompensa, premiando o esforço, com ranqueamento e pontuação, para que elas posam se sentir motivadas”, explicou.

Apear das iniciativas, o futebol feminino de base segue dependente do masculino. Para Thais, o maior desafio tanto da base quanto do profissional é precisar dos recursos obtidos pelos times principais para o investimento nas mulheres.

“Acredito que os desafios do futebol feminino de base sejam os mesmos do profissional. Precisamos da verba do masculino, não temos autossuficiência. Precisamos proporcionar boas condições para as atletas e, no futuro, trabalhar com contrato de formação para essas meninas”., comentou

Thais Picarte trabalha em parceria com o Projeto Meninas em Campo. Foto: Reprodução/ Instagram

Uma das dificuldades que a própria coordenadora encontrou em sua carreira como atleta foi a falta de oportunidades. Ente passagens pelo futebol paulista, a ex-goleira precisou conciliar a faculdade de Educação Física com as luvas e as chuteiras. além de lidar com o fechamento de algumas equipes e contar com a ajuda da mãe, que pagava seu transporte entre Santo André e São Paulo no início da carreira.

Depois de experiências na Espanha e na França e do encerramento da carreira no pró´rio Santos, Picarte aceitou o convite para coordenar as Sereinhas da Vila neste ano. Analisando o momento do futebol feminino no Brasil, ela afirma que é necessário profissionalizar a modalidade.

“A CBF pode impulsionar mudanças significativas, como já fez com a obrigatoriedade da criação de equipes femininas. O próximo passo é exigir que os clubes da primeira e segunda divisão sejam profissionais, para regularizar a profissão. Hoje, a FENAPAF (Federação Nacional de Atletas Profissionais de Futebol) já faz trabalhos com a modalidade, mas não há um sindicato próprio pela falta de profissionalização das atletas”

“Os principais responsáveis pelas melhorias são a CBF e o marketing dos clubes, que precisam trabalhar para vender o material que promova o futebol feminino, atrair patrocinadores. A curto prazo, será preciso reestruturar e retomar as competições. Para um futuro, elas poderão ser ampliadas, as federações podem ter um cuidado maior com os torneios, assim como a Federação Paulista faz”, completou a coordenadora.

Antes da pandemia, o Santos tinha pela frente os Paulistas sub-17 e sub-15, este uma novidade no calendário da FPF, além dos Brasileiros sub-18 e sub-16, o último no qual o clube foi vice-campeão no ano passado. No entanto, ainda não há uma definição sobre a realização dos campeonatos, que dependem da volta das atividades do futebol masculino principal.

Thais conclui dizendo que é preciso olhar para o futebol feminino como solução, não como problema. “O que mais decepciona é a falta de valorização da mulher, não só no futebol. As atletas são muito desrespeitadas e desvalorizadas no país hoje.Tratam a mulher como um problema, não como solução. Muitos dirigentes veem o futebol feminino como um problema, sendo que elas só querem praticar o esporte. Isso me deixa extremamente desapontada”, lamentou.

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