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Diretores da Double Pass detalham métodos e analisam trabalho de base no Brasil

O desenvolvimento de um jogador de futebol passa por muitos aspectos da formação individual, coletiva e social. Para que isso funcione de uma forma coesa, é importante contar com empresas especializadas na área. A consultoria belga Double Pass é uma delas. Ela otimiza potenciais e formula processos ao lado de clubes, ligas e federações em todo o mundo.

Double Pass vem desenvolvendo trabalho vitorioso no Internacional. Foto: Reprodução/ Instagram

A empresa busca inspirar, estimular e apoiar todas as partes interessadas no futebol, utilizando métodos científicos que permitem otimizar o potencial dos jogadores, melhorar a qualidade do jogo e produzir capital social e econômico sustentável. Referência em gestão técnica da base, a Double Pass tem como alicerce o método de cocriação, explicado pelos diretores em entrevista exclusiva ao DaBase.com.br.

“Trabalhamos no mesmo processo: entender o que acontece no país, federações e nos clubes, caso sejam os clientes, respeitando sempre a cultura local. A partir disso, podemos educar e oferecer ferramentas aos gestores. Não implementamos nada. Através da cocriação, damos conhecimento e estimulamos o cliente a criar sua própria filosofia. Juntos, nós desenvolvemos um trabalho que valoriza o lado humano dos jogadores”, disse Hugo Schoukens, CEO e fundador da consultoria.

Diretor de futebol, Hans Elst usa o exemplo do trabalho feito com a federação belga, que começou em 2002. Com instruções aos técnicos e dirigentes, a consultoria apontou os pontos a serem aprimorados e como isso poderia ser feito. Com o aval dos gestores, os procedimentos foram desenvolvidos. Hoje, além de uma liga mais forte, a seleção belga colhe os resultados, com grandes atletas do futebol mundial e ótimo desempenho nas competições.

Trabalho no Brasil

No Brasil, a Double Pass já atuou ao lado de quatro clubes. Flamengo, Athletico-PR, Internacional e Bahia, que firmou parceria neste ano. Hans fez um diagnóstico do trabalho de base brasileiro e destacou que a adoção do modo estrutural é fundamental para evitar o desperdício de talentos.

“Quando analisamos o Brasil, percebemos que há muito recurso humano. É engraçado que na Europa falamos que as crianças não jogam mais na rua, não criam habilidades técnicas, mas que os brasileiros têm. Porém, no Brasil as pessoas tem falado a mesma coisa, que isso já foi melhor. O ponto é que clubes e federações adotam o modo orgânico, em que as coisas ‘acontecem’ sem um processo bem delineado. Com processos, o Brasil pode ser mais forte”, comentou.

“É preciso criar uma ideia interna  de talentos e organizar a captação para depois instalar melhores estruturas no desenvolvimento de atletas, focando na qualidade, não na quantidade. Há clubes com 125 jovens na base, um número muito elevado. Normalmente as equipes trabalham com 20 jogadores por categoria, mas no Brasil há times com 55. É necessário identificar o talento, o perfil, e adotar a melhor estrutura, obtendo os melhores resultados”, completou.

Hugo ainda acrescentou que é fundamental a criação de uma base de dados para observação e análise dos atletas. “É preciso ter dados sobre os jogadores de 16, 17 anos, informações sobre as performances, análises de scouting. Com muita informação, você evita ter 55 jogadores em uma equipe e constrói um ambiente de formação no clube”, completou.

Bahia iniciou parceria com a Double Pass em 2020. Foto: Reprodução/ Instagram

Transição

No estágio final da formação, os processos estruturais são fundamentais para o aproveitamento do atleta no time profissional. Mas para que isso seja eficiente, tudo começa nas categorias menores, com o desenvolvimento de uma filosofia que atenda todo a base do clube ou da federação, como explicou Hans.

“A transição, é como desenvolver a carreira de um atleta de categoria em categoria. Começa com a conexão, os departamentos devem estar ligados. Por exemplo, todos os times têm que jogar no mesmo estilo se não os jovens terão que se adaptar a uma nova filosofia quando chegar ao profissional, onde não há muito tempo para isso. Às vezes, os atletas também não estão preparados para subir, então temos que colocar objetivos, definir minutagem, para depois olhamos o retorno do investimento. Mais do que isso, os jogadores não são apenas números. Eles têm que se divertir, são pessoas, que é o nosso foco”, explicou.

“É preciso dar oportunidades, detectar a maturidade do jogador, estimar o seu momento. A cada dois, três meses, fazemos avaliações, olhamos desempenho, se ele vai à escola. São poucos que se tornam profissionais , então fazemos questão de incentivar a formação social”, acrescentou Hugo.

Gestão no Brasil

Para efetuar esses procedimentos, a Double Pass precisa do engajamento de treinadores, coordenadores e dirigentes. Os gestores, no entanto, podem ser um problema no Brasil. Em um país no qual a política interfere em clubes e federações, a manutenção de um trabalho a longo prazo fica impossibilitada. Diretor da Double Pass na América Latina, o brasileiro Alexandre Dias explica que isso é um ponto importante no sucesso da empresa.

“É importante dizer que o sucesso está nos trabalhos a longo prazo. Nós não realizamos as mudanças, damos ferramentas e informações para que gestores façam isso. No Brasil, não trabalhamos com clubes pelo seus tamanhos, mas sim pela mentalidade. Muitas vezes, os técnicos são engajados, mas os dirigentes não compram a ideia”, falou,.

Os diretores da consultoria elogiaram o trabalho de gestão do Bahia, que mesmo com eleições para cargos, possui uma administração profissional na qual o presidente se dedica exclusivamente ao cargo.

“Nos países que têm cultura política, há um diretor técnico com autonomia. Quando há administração política e não profissional, ocorre o conflito, com dificuldades  a longo prazo. Se não vencer esse ano, não mantém o trabalho. Na Europa, as mudanças não geram instabilidade. Quando alteram a estratégia, fazem a longo prazo”, afirmou Shockens.

“Quando comparamos com os dirigentes brasileiros, a diferença é que as federações desses países europeus também se engajam, não só um presidente de um clube. Ele pode decidir em sua equipe, mas isso tem que ser exportado para a confederação, para a liga. Assim, damos os passos para todo o sistema, não apenas um clube. No fim, temos melhores ligas e um conjunto mais forte”, detectou Alex.

Double Pass tem parceria com o Hertha Berlim. Foto: Reprodução/ Instagram

Mensagem final

A equipe da Double Pass deixa uma mensagem final para gestores e técnicos brasileiros. Eles dizem que o inglês, a busca pelo conhecimento e o foco nos atletas são os pontos fundamentais para o desenvolvimento de talentos com sucesso.

“Queremos dizer que continuem aprendendo, olhando para o exterior, e principalmente aprendendo o inglês. Falei com o Odair Hellmann quando trabalhamos com o Internacional e ele estava frustrado por que não conseguir se comunicar diretamente conosco. Na Europa, temos vários jogadores brasileiros, mas não técnicos, pois muitos não sabem falar inglês. Além disso, observar em diferentes perspectivas, com foco nos indivíduos, no desenvolvimento de jogador. Não pensem em jogar três jogos por semana e ganhar títulos”, afirmou Hans.

“O inglês é fundamental no contexto internacional. Se você quer estudar na Europa, terá que saber o idioma, pois aqui só se ensina dessa forma. Se você quer ser um técnico melhor, isso é o ponto principal”, completou Hugo.

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